SAÚDE MENTAL EM COMUNIDADES EDUCATIVAS: VIVÊNCIAS, CONEXÕES E DESAFIOS LATINOAMERICANOS
A presente pesquisa-investigação analisa a produção de saúde mental escolar em uma escola estadual de Belo Horizonte (MG), articulando políticas públicas brasileiras, o modelo
chileno de promoção e atenção à saúde mental em contexto educativo e o campo teórico das Representações Sociais (RS), considerando atravessamentos de raça, gênero, sexualidade e
classe no cotidiano escolar. A problemática central emerge da pergunta: Como um programa de saúde mental escolar do Chile pode ser modelo para o Brasil? Tal indagação surge diante
da emergência de sofrimentos psíquicos, conflitos e desigualdades que atravessam o espaço escolar brasileiro contemporâneo. A pesquisa parte do pressuposto de que a saúde mental
escolar é um fenômeno complexo, histórico e estrutural, vinculado a desigualdades sociais, cuja transformação exige ações educativas crítico-dialógicas, conforme destacado pela OMS
(2003).
O objetivo geral consiste em analisar, acompanhar e avaliar a implementação de uma intervenção baseada no modelo chileno de saúde mental escolar, buscando compreender como estudantes e professores representam a saúde mental e como essas representações podem se transformar por meio de práticas educativas emancipatórias. Os objetivos específicos incluem:
a) mapear as representações sociais de estudantes e docentes sobre saúde mental; b) realizar intervenção educativa inspirada no modelo chileno; c) identificar mudanças nas representações após a intervenção com a reaplicação da Técnica de Associação Livre de Palavras (TALP); e d) discutir os achados à luz do Materialismo Histórico-Dialético e da Teoria das Representações Sociais.
O aporte teórico articula Moscovici (2003), Jodelet (1989), e Wachelke e Wolter (2011) no campo das Representações Sociais; e Castro & Mayorga (2019), e Carneiro (2005) para a crítica social e interseccional. A análise sobre política pública dialoga com documentos brasileiros (BRASIL, 2007) e com estudos do modelo chileno ((Rojas-Andrade et al., 2023); 2019; CHILE, 2022; 2024), considerados referência latino-americana em promoção de saúde mental.
1 esteves.mariana@live.com, Doutoranda em Educação, pela Universidade Federal de Minas Gerais.
2 luizribeiro@live.com, Professor Doutor da Universidade Federal de Minas Gerais
A metodologia adota abordagem quali-quantitativa, com três etapas articuladas. Na primeira, aplicou-se a TALP a 103 estudantes de diferentes etapas de ensino, usando cinco termos indutores (“saúde mental”, “violência na escola”, “convivência escolar”, “bullying” e “aprendizagem”), cujas respostas foram tratadas via análise prototípica utilizando OpenEvoc, seguindo Vergès (1992). Na segunda etapa, realizou-se intervenção educativa baseada no HPV, incluindo oficinas, dinâmicas e debates reflexivos, inspiradas em Aranguren Zurita (2022), com foco no desenvolvimento socioemocional, enfrentamento das desigualdades e fortalecimento de vínculos. A terceira etapa consistirá na reaplicação da TALP para avaliação das transformações.
Os resultados iniciais indicam que as representações sociais de estudantes sobre saúde mental possuem um núcleo central ancorado na psicologia, demonstrando forte associação entre saúde mental e assistência psicológica. A violência escolar aparece conectada a questões estruturais como racismo e vulnerabilidade social. A convivência escolar apresenta “respeito” como elemento central, acompanhado por “amizade” e “empatia” na periferia, revelando que relações sociais positivas são percebidas como fundamentais para o bem-estar. Professores também relacionam convivência a respeito, empatia e aprendizagem, evidenciando compreensão ampliada do cuidado escolar. No termo “bullying”, predominam “violência”, “agressão” e “desrespeito”, reforçando a compreensão do fenômeno como prática de violência simbólica e física.
Os achados confirmam que a escola estudada é atravessada por desigualdades e conflitos decorrentes do território e de fatores socioeconômicos, em consonância com seu Projeto Político-Pedagógico. Nesse contexto, o modelo chileno demonstrou elevado potencial por sua abordagem preventiva, comunitária e intersetorial, ao fortalecer habilidades socioemocionais e redes de apoio, se mostrou adequado ao ambiente pesquisado, apontadas por (Rojas-Andrade et al., 2023), embora suas limitações estruturais no Chile exijam adaptações ao contexto brasileiro. A segunda etapa da pesquisa consistiu na implementação de intervenções educativas baseadas no modelo chileno, com o objetivo de promover a saúde mental escolar de forma preventiva e integradora (Rojas-Andrade et al., 2023). Foram realizadas ações universais (oficinas, projetos e eventos temáticos sobre empatia, respeito, autocuidado, entre outros), ações focalizadas (acompanhamento de grupos com desafios específicos de convivência e vulnerabilidades emocionais) e ações individuais (atendimentos com escuta qualificada, planos de apoio para estudantes em maior vulnerabilidade, e encaminhamentos). O objetivo foi criar um ambiente mais acolhedor e solidário, alinhado às diretrizes de políticas públicas intersetoriais e emancipatórias.
A terceira etapa, em andamento, consiste na avaliação dessas intervenções se dará por meio da reaplicação da Técnica de Associação Livre de Palavras (TALP), permitindo uma análise detalhada das mudanças nas representações sociais de estudantes e docentes sobre o tema.
A articulação entre RS e intervenção educativa crítica possibilita transformar sentidos, produzir novas práticas e fomentar pertencimento e solidariedade. A pesquisa reafirma a potência da escola como espaço de resistência e cuidado coletivo, e aponta que políticas públicas de saúde mental escolar devem ser intersetoriais, emancipatórias e comprometidas com justiça social.
- Periódico: Anais do Wera
- Ano de Publicação: 2025